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O Arroz do Cachorro/Rice of the Dog/Le Riz du Chien/Reis des Hundes

Alegrias, tristesses, Schadenfreude, insanidades e muito spleen

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Alegrias, tristesses, Schadenfreude, insanidades e muito spleen

11
Mar18

Reflexões Vadias de um Tolo Infeliz


Don 'Toño

Umas pessoas têm o talento de colocar no papel o que pensam ou sentem, ou o que pensam que sentem. Acho que eu não sou uma delas. Sempre que tento sai algo diferente do que pensei. Também pode ser que isso seja uma coisa boa. Não sei. Mas... azar: vou tentar.

Nos últimos dias tenho andado um pouco miserável. Muitas mudanças e eventos ao mesmo tempo. Ter perdido a minha cadela foi o que me abalou mais. Me sinto culpado, mesmo que digam que eu não podia ter feito nada.

O problema agora é que sempre que sinto culpa eu lembro de muitas das cagadas que eu fiz, e das coisas potencialmente boas que eu não fiz. Merda e merda...

Nos últimos meses, já andava pensando bastante numa combinação específica de idiotices que fiz em relação a uma pessoa em particular. Tenho pensado nela ainda mais agora. Dos muitos arrependimentos que tenho, a forma como lidei com ela é um dos maiores.

Um monte de imagens malucas e possíveis descrições dela em palavras me passaram na cabeça também. Tentei uns poemas, escrevi umas bobagens em francês no meio também. Li de novo o que escrevi uns dias depois e odiei. Mas de algumas imagens eu gostei.

Uma dessas imagens era dela como uma espécie de deusa mortal, feita de fogo, gelo, névoa e alabastro, segurando uma espada numa mão e um cetro na outra, com arco e flechas nas costas. Umas flechas brancas e umas pretas. Usando umas roupas volumosas, meio azuis e meio brancas, estilo etrusco. Pessoas se curvando pra adorá-la, e os deuses gregos olhando com inveja e ciúmes. Alguns se perguntando por que ela não morava com eles no Olimpo. Uma doideira assim.

Outra que gostei foi uma associação dos olhos dela com um céu chuvoso. E como ela era como a chuva, que pode fazer bem e mal ao mesmo tempo, porque eu me sinto bem e mal pensando nela. Um dos poemas ridículos foi sobre essa imagem. Repousa agora na lata de lixo.

---

É tudo muito estranho. Eu sou estranho. A situação acho que é até comum. Sempre ouvi histórias de gente que queria tanto se aproximar de alguém que acabava afastando completamente a outra pessoa. Sei lá.

Na verdade, como ela mesma me falou uma vez, eu nem conheço ela. Eu sinto que sei tudo, graças às redes sociais e ao Google/DuckDuckGo, mas a verdade é que nunca convivemos realmente. Tenho que me esforçar até pra lembrar da voz dela às vezes.

Criei essa imagem mental dela como sendo perfeita, mais que humana. E eu sei que ela é legal, de verdade, mas não conheço os defeitos dela. Transformei essa mulher numa Daisy Buchanan do Gatsby: uma representação de um ideal, uma esperança de alcançar através dela algum patamar de não-sei-o-quê onde a felicidade fosse inabalável.

Aliás, pensando nessa esperança, acho, inclusive, que no fundo eu sempre quis falhar em me aproximar dela, pois se me aproximasse, a ilusão acabaria e, junto com ela, a desculpa.

Isso! A desculpa! Me dei conta já faz um tempo, mas só agora estou começando a admitir: enquanto eu nutro essa esperança e mantenho essa imagem dela como mulher inigualável, tenho uma desculpa pra mim mesmo pros fracassos amorosos, e também para nem buscar mais me relacionar.

Quanta bizarrice! E eu tinha conseguido ficar anos sem tentar falar com ela. Não é coincidência que eu tenha voltado a pensar nela obsessivamente depois de outra tentativa frustrada de me encantar por alguém.

Sinto um arrependimento profundo. E culpa. É super injusto com ela projetar todas essas esperanças, e tentar falar com ela com toda essa carga, e manter a obsessão. E me sinto fraco, porque tinha prometido que não ia tentar mais me aproximar, e quebrei a promessa. Tenho que querer parar! Não quero ser mais um homem de merda no mundo.

06
Jan18

Um Final Schmaltz


Don 'Toño

 

Depuratta vivia tranquilamente em qualquer lugar, desfrutando da quietude e beleza do entorno enquanto fazia chá. Certa manhã, uma manhã aparentemente igual a todas as manhãs e sem qualquer ambição própria de ser uma manhã diferente, um jovem de barba branca e longos cabelos azuis viu Depuratta enquanto esta seguia seu ritual diário de preparar chá. E apaixonou-se, ou assim ele pensou.

 

- Olá - disse o jovem, já cheio de esperanças e imagens mentais fantasiosas.

 

- Qual é o teu nome, doce criatura? - continou ele, com ar animado.

 

- Chamo-me Depuratta - foi a resposta, sem qualquer tipo de ênfase.

 

- Depuratta... é um belo nome, ainda que pouco usual - disse, adicionando esta informação às projeções futuras em sua cabeça.

 

- Gosto de pensar que não existe ninguém mais com o mesmo nome; me sinto especial assim - falou Depuratta, com um aspecto orgulhoso e ligeiramente presunçoso.

 

- Um nome especial para uma garota especial... Diga-me, por acaso tens um namorado? - perguntou o jovem, muito animado e sentindo-se galanteador.

 

- Não tenho, e na verdade nunca tive - respondeu, já pouco confiante de que gostaria ouvir o resto do que o jovem tinha a lhe dizer.

 

- Ah, que bom saber... Eu não costumo ser assim... me sentir assim, quero dizer... Mas quando te vi, logo soube que era a garota especial, como a gente lê nos romances e vê nos filmes... - foi dizendo o jovem, graciosamente.

 

- Então... quer ser minha namorada? Prometo que vou sempre te amar e te respeitar, e te dar tudo o que quiser, e limpar suas lágrimas e cobrir o sol quando estiver muito quente, e... - continou ele, cada vez mais inflamado e envolto em devaneios.

 

- Pare! - interrompeu Depuratta, agora enfática - Olha... me desculpa, viu, cara... mas não estou interessada. - completou, virando-se de lado.

 

- Mas... por quê? Por quê não me quer? - indagou o jovem, com a voz queixosa

 

- Não tem nada a ver com você... sou eu. Só não tenho interesse em namorar - disse ela, sem querer ferir sentimentos.

 

- Não me achou bonito, não é? Porque os meus cabelos e barba não são da mesma cor, não é? - inquiriu ele, com tom quase acusativo.

 

- Não, cara... o que acho de ti fisicamente não importa... não é relevante... como eu disse, não tenho interesse nisso, só quero continuar fazendo o que gosto: preparar e beber chá. - explicou Depuratta com honestidade.

 

- Mas todos procuram sua metade, sua alma gêmea... por que você seria diferente? Eu não acredito! Me achou chato, não é? Pode dizer a verdade... - disparou o jovem, já mostrando uma certa irritação, e demonstrando que as fantasias anteriores começavam a se desfazer

 

- Olha... nem todos procuram sua "metade"... algumas pessoas se sentem completas simplesmente por serem quem são... e as que não se sentem assim deveriam primeiro buscar esse sentimento de completude sem depender dos outros, sabe? - disse-lhe Depuratta, agora tomada de compaixão por ver o quão fora da realidade vivia o jovem.

 

- Não... NÃO! Essa completude que mencionou... desse jeito... não é possível. Eu nunca senti isso ou conheci alguém que se sentisse assim... É mentira! - argumentou o jovem, muito inquieto e tomado por insegurança - Sei que me achou chato... e como não acharia? Nem me deu uma chance de mostrar como eu sou de verdade! Me fez falar desse jeito chato! - completou.

 

Depuratta agora não sabia o que fazer ou dizer. O jovem era cheio de ilusões e conceitos formados a partir de uma visão de mundo limitada e inflexível. Seus pensamentos e atitudes eram manifestações puras de egocentrismo. E agora, como se não bastasse, ele ainda a culpava por uma percepção que construíra de si mesmo como sendo chato. E ela teve pena, mas, ao mesmo tempo, ainda que sem querer, o achava chato mesmo.

 

Decidiu que era melhor voltar a ocupar-se do que lhe interessava e do que sabia como lidar, e retomou o preparo do chá.

 

- Ah, agora ainda vai me ignorar, é isso? Vai bancar a indiferente? - manifestou-se o jovem, agora completamente alterado e com o semblante e a postura completamente irreconhecíveis diante do que havia mostrado anteriormente

 

- Eu te amo! Eu te AMO! E tu me despreza... Não sei como me apaixonei assim por uma puta como tu. Sua vadia suja! - explodiu com raiva.

 

Depuratta agora sabia que o jovem era muito perturbado e o esforço para que um dia ele pudesse agir decentemente e fosse feliz seria demasiado, e que ela não seria capaz de ajudar. E já estava farta daquilo, mas continou preparando chá. Agiu como se ele não estivesse mais ali despejando todas as ofensas que habitualmente os machos desferem contra as fêmeas.

 

- Eu vou ficar aqui até que demonstre alguma coisa, ouviu, sua piranhazinha? EU TE QUERO! EU TE AMO E QUERO TE COMER! SEU DEPÓSITO DE...

 

Depuratta abriu a despensa onde guardava seus apetrechos para o preparo de chá e outras coisas que julgava importantes de se guardar, pegou uma escopeta que guardava atrás dos pacotes de bolo instantâneo e disparou contra a cabeça do jovem, espalhando e misturando o branco da barba e o azul dos cabelos com o vermelho do sangue que jorrava copiosamente.

 

Agora aliviada, Depuratta pôde terminar o ritual de preparo, e, enfim, tomar chá em paz e feliz com seus amigos chazinhos.

 

- FIM DO PRIMEIRO E ÚNICO ATO

 

 

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